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quinta-feira, setembro 18, 2008

Que fazer quando tudo apodrece?

O aluno foi, ao longo do ano, um exemplar perfeito do cábula mal-criado. Faltava quando queria. Muitas vezes ainda passava pela sala, a meio da aula dos colegas, entrava, interrompia as actividades e voltava a sair. Outras vezes, não entrava, limitava-se a aparecer à janela para acenar aos que cumpriam a obrigação. Quando lhe pediam uma justificação para as faltas, mentia. Quando ia às aulas, continuava a não ser um aluno. Trabalhava quando queria, e a sua vontade parecia alérgica ao esforço. Evitava-o a todo o custo. O telemóvel parecia colado às mãos. Gozava com os colegas. Bem vestido, ostentava as suas roupas de marca, o telemóvel topo de gama. Gabava-se do que tinha em casa. E gozava com os que não tinham o que ele tinha: fossem as calças de um dos rapazes, que eram motivo de chacota; fosse a falta de cultura de outros, tudo eram pedras para ele erguer o seu próprio pedestal.
Tornado líder pela incompreensível apetência dos adolescentes para admirarem os vilões que quebram as regras e aparentam ser indomáveis heróis, arrastou os outros para o seu caminho. Começaram as faltas dos que até aí eram cumpridores, os maus hábitos, as respostas grosseiras aos professores para se mostrarem ao seu líder, o tabaco fumado às escondidas, oferecido por ele.
A família do rapaz era também exemplar: nunca vieram à escola, nunca responderam às cartas enviadas que alertavam para as faltas injustificadas. Os genes são uma coisa poderosa. Finalmente, quando chegou a carta a anunciar a exclusão por faltas, apareceu alguém. Sim, viram as cartas e as faltas, mas pensavam que estava tudo bem. Quase insinuaram que não foram postos ao corrente do que se passava. Durante nove meses, não tiveram tempo, uma mísera hora, para se preocuparem em saber o que o aluno andava a fazer. No final, tiveram tempo de aparecer mais do que uma vez.
Contado o caso ao presidente do conselho executivo, a decisão foi taxativa: exclua-se por faltas. Assim foi feito. Quando o ano terminou e saiu a pauta de avaliação, à frente do nome do aluno não surgiram notas, apenas a indicação de "excluído por faltas."
A turma sentiu-se satisfeita pelo que aconteceu. Sentiu a presença de uma justiça, de uma ordem que impede o caos. Eles precisam dessa ordem, dessa imposição de uma linha de conduta. Os adolescentes valorizam muito a imposição de regras, embora as procurem quebrar constantemente.
Chegou o novo ano. A turma juntou-se novamente. Sem o aluno excluído. Até que, um dia, o presidente fala com os directores do curso: "é preciso avaliar a situação do aluno". "Como? Qual situação?"
A proposta foi simples: recolocá-lo no segundo ano de um curso de onde foi excluído por incumprimento das regras definidas por lei. E, com essa atitude, destruir a autoridade dos professores e quebrar a confiança dos alunos nas regras instituídas. E qual o motivo para tão radical mudança de posição? Um telefonema de um inspector escolar. Curiosamente, um profissional que tem (teoricamente) a função de fiscalizar pelo cumprimento das leis do Estado pede (ou exige?) que essas leis sejam todas atropeladas. Tudo em nome da cunha baixa. O presidente, submisso, acata a ordem. E pede aos professores que mintam aos alunos: inventa um protocolo entre instituições; seria ao abrigo desse protocolo (do qual não há qualquer vestígio em papel) que o aluno deveria ser reintegrado na turma, apesar de a lei não prever essa hipótese. Apesar de ser obsceno em todos os sentidos. Ao saberem do sucedido, os alunos aceitaram o facto com resignação e um esgar irónico. "Se fosse comigo, de certeza que não me deixariam voltar." E tinha razão, não conhece um inspector disponível em pedir a corrupção da lei que deveria defender. E, depois, a ironia: "olhe, acho que vou faltar às aulas, afinal de contas o efeito é o mesmo." E, novamente, tem razão. Estamos no país da cunha e da corrupção. Viva Portugal.

1 comentário:

Anónimo disse...

Situações de cunha no ensino é o pão nosso de cada dia! Veja-se a lista das colocações de professores com destacamento por condição específica! Se tivessem de apresentar-se perante junta médica idónea, o número de candidatos diminuía, ó se diminuía! Pena que haja colegas que realmente precisam de destacamento e não o conseguem. E é uma pena também que haja tantos colegas sem um pingo de vergonha na cara e com tanta falta de carácter.