Sem saber como lá fui parar, a verdade é que dei por mim numa loja de artesanato, algures na Galiza. Pelo menos julgo que é a Galiza. A vendedora fala castelhano, mas mesmo assim pressinto que estou na Galiza. Pergunto por um qualquer objecto. O vendedor (que aconteceu à vendedora?) diz-me que não tem, que já teve, mas que agora deixou de receber. Creio que se trata de réplicas de estatuetas pré-históricas, como aquela gordinha de Willendorf. Mas também poderia ser uma escultura medieval, a memória ficou algo turva. Tiro um cartão do bolso, na minha boa vontade de tentar ser útil. Entrego-o ao vendedor. Falo um castelhano péssimo, mas faço-me entender. O cartão tem o contacto de um fabricante de estatuetas, português, que recomendo ao vendedor.
O homem olha-me e agradece, mas que tem receio de contactar com ele. "Porquê?", pergunto eu. "Não sabe que este homem agora vive com um taxista?", e mostra-me uma fotografia do artista (que eu reconheço, embora não me lembre de alguma vez o ter visto) de camisa amarela, ao lado de um outro homem, de camisa florida, azul-bebé, encostado a um carro, que seria o dito taxi. O absurdo da situação escapou-me, na altura, e aceito o argumento do vendedor com naturalidade, não sei bem porquê.
Tento ajudá-lo a contornar a sua dificuldade, perguntando se não teria na loja alguém em quem confiasse, que pudesse estabelecer o contacto por ele. Passa a vendedora que vira inicialmente e o vendedor aponta para ela. Mas não parece muito convencido. Será que não confia nela? Mas que confiança especial é necessária para fazer (provavelmente por telefone) uma simples encomenda? Estas dúvidas, porém, ponho-as agora, em que tudo me parece absurdo, não na altura.
O silêncio é cortado por uma música que surge do nada e invade a loja, crescendo. Abba?!
Sábado de manhã. Os Abba cantam a partir do telemóvel pousado na minha mesa-de-cabeceira. Onde estava eu com a cabeça para pôr semelhante toque? E o relógio a dizer "é tão cedo" na sua linguagem de algarismos.
Olho para o visor: Cátia. A minha prima. Mas que me quer ela a esta hora?
"Estou?"
Eu sou mais directa, e com uma voz ensonada e muito irritada, limito-me a "Diz!"
"Acordei-te?"
Só me faltava esta. Claro que acordaste... "Diz!!", agora num tom mais duro.
"Podes ir ter ao meu carro? Tocou aqui uma senhora a dizer que o marido me bateu no carro. Eu bem sentia que ele não tinha ficado ali bem."
"Ali" era o fim de uma curva, onde sempre ficaram carros estacionados sem qualquer problema. Mas a minha prima, desde o momento em que puxou o travão de mão e trancou o carro que o sentiu mal estacionado. E, pelos vistos, tinha razão.
"Já lá vou ter."
Visto-me à pressa, prendo o cabelo, calço umas sapatilhas e saio a correr. Junto ao carro da minha prima está outro carro, quatro piscas ligados, duas crianças no interior e um casal cá fora. Deviam ter cinquenta anos, ou pelo menos vestiam-se como tal. Ou foram pais muito tarde ou os putos são emprestados (na melhor das hipóteses), porque são ainda pré-adolescentes.
Da minha prima nem sinal.
"A menina é a dona do carro?"
"Não, sou a prima da dona."
A mulher olha para mim com ar irritado. Isto de facto soou um pouco mal.
"Sou mesmo a prima da dona, ela ligou-me para vir também, deve estar aí a chegar."
Olho para trás, mas nem sinal da minha prima. O rosto da senhora amenizou-se, mas mantinha um ar de preocupação. O marido olhava para a amolgadela que tinha no carro dele, depois olhava para o carro da minha prima, intacto, e voltava para a amolgadela. Não consegui perceber se ele estava aliviado ou irritado, porque o seu rosto tinha a expressividade de um actor de novela portuguesa.
"Olhe, a culpa é toda minha", começou a contar a mulher, agitando muito as mãos enquanto falava. "É minha porque vinha a conversar com o meu marido, a dizer-lhe para ele ter cuidado, ainda há pouco ouvimos na rádio falar de um acidente e eu vinha a dizer-lhe 'vai com atenção', porque hoje em dia todo o cuidado é pouco e é preciso mil olhos e mesmo assim as coisas acontecem..."
Começo a compreender a causa do acidente. Com tanto palavreado até eu começo a perder o norte.
"... e ele até nem tem o hábito de acelerar, é muito cuidadoso, mas é distraído, e já não é a primeira nem a segunda vez que apanhamos um susto. Claro que às vezes são os outros, anda por aí muita gente que não devia ter carta, são uns criminosos, mas a esses a polícia não vê, mas a nós ser for preciso mandam logo parar e vasculham tudo na caça da multa."
Interrompo-a. "Vem lá a minha prima." E, de facto, lá vinha. Mas não parecia vir de casa, parecia que passara ainda pelo cabeleireiro e pela esteticista. Não admira que tivesse demorado esta eternidade. É que a minha prima é do género de rapariga que põe baton e perfume antes de fazer um telefonema. Bom, eu cá costumo tirar os óculos, mas já é um reflexo condicionado...
Com a chegada da minha prima, a senhora (após as necessárias saudações) recomeça o seu conto, por outras palavras, mas que me dispenso de transcrever aqui na íntegra, preferindo ir directamente ao assunto (as reticências representam longas divagações sobre o tema colocado entre parêntesis):
"Quando o meu marido vinha a fazer a curva ... (velocidade) eu vi o carro estacionado (estacionamentos e multas; "não leve a mal, menina, que o seu está bem estacionado, e blá blá blá) e gritei "cuidado" ... (histórico de todas as situações anteriores em que o grito de cuidado foi fundamental para a salvação de inúmeras vidas) e o meu marido assustou-se ... (aqui a senhora, não sei bem por que caminhos, chegou à história de uma vizinha que caíra das escadas) e deu uma guinada para se desviar, mas pensou que eu tinha visto um carro a vir em sentido contrário ... (o sol da manhã e o uso de óculos escuros; o preço das consultas de oftalmologia; as listas de espera) e em vez de se desviar para o meio da estrada, desviou-se para a berma e bateu no seu carro, menina."
Terminado o longo relato, fomos ver os estragos. De acordo, os senhores foram honestos e sérios. Poderiam muito bem ter ido embora sem dizer nada, como a maioria faz. Mas a verdade é que, neste caso, realmente poderiam ter ido embora, porque os danos no carro da minha prima só podiam ser detectados com recurso a lupa. Tenho a sensação que ela nunca daria conta que aqueles riscos (ténues como algumas gravuras de Foz-Coa) ali estavam.
O senhor sugeriu o preenchimento dos papéis amigáveis. A minha prima, no entanto, teve o bom senso de sugerir que não valia a pena o trabalho. Os estragos no seu carro eram mínimos, por isso não valia a pena envolver as seguradoras no caso. "Cada um trata do seu", rematou.
Quando pensei que tudo estaria resolvido, eis que toca o telemóvel do senhor. Este, como não podia atender, passa-o à mulher "é a tua irmã" e volta a olhar, comovido, para os ferimentos do carro. As duas crianças dão sinal de vida e decidem sair para ver os estragos. A conversa da senhora ao telemóvel arrisca-se a acordar a vizinhança. Naquele tom, poderia falar directamente com a pessoa, sem recurso a máquinas. Olho em volta e deparo-me com o vizinho do terceiro esquerdo a espreitar da janela e a vizinha do segundo direito do prédio da minha prima a olhar debruçada no gradeamento da varanda, acabada de acordar. E, no prédio em frente (ou seja, no meu), o palerma do engenheiro a olhar para a vizinha do segundo direito, logo ele que é tão metediço e se costuma envolver nestas questões públicas. Hoje, que até dava jeito que viesse até cá, fica pasmado a olhar para os ombros nus e o colo de bronze da sedutora Julieta.
“Ai, a sério? Morreu? Mas como?” – ouço a mulher dizer ao telemóvel, antes de se virar para o marido e “o Ernesto morreu.”
“Qual Ernesto?” O homem continuava de olhar preso nas amolgadelas.
“O meu primo, o filho da minha tia Ermelinda.”
“Ah, está bem.”
Pausa. Olho para a minha prima. A minha prima olha para mim. As crianças olham para a mulher, a mulher para o marido, o marido para o carro. Finalmente, o marido liberta-se do transe e pergunta “e morreu como? Estava doente?”
“Não. Matou-se, vê lá tu.”
“Matou-se?”
“Sim, foi para o meio do monte e matou-se, enforcou-se numa oliveira ou lá o que é.”
“Olha que chatice.”
Continuo a olhar para a minha prima e ela para mim. Isto não está a acontecer. Definitivamente, não está a acontecer. Estava eu tão bem a dormir.
A mulher termina a conversa ao telemóvel, desliga-o, devolve-o ao marido e vira-se para as crianças.
“Já viram que desgraça, meninos? Foi o acidente, agora esta notícia da morte do primo Ernesto. E nós que saímos de casa descansados, para ir ver a avó ao cemitério.
“Bom, esperavam mais uns dias e viam também o Ernesto”, pensei eu. Mas não disse.
O homem olha-me e agradece, mas que tem receio de contactar com ele. "Porquê?", pergunto eu. "Não sabe que este homem agora vive com um taxista?", e mostra-me uma fotografia do artista (que eu reconheço, embora não me lembre de alguma vez o ter visto) de camisa amarela, ao lado de um outro homem, de camisa florida, azul-bebé, encostado a um carro, que seria o dito taxi. O absurdo da situação escapou-me, na altura, e aceito o argumento do vendedor com naturalidade, não sei bem porquê.
Tento ajudá-lo a contornar a sua dificuldade, perguntando se não teria na loja alguém em quem confiasse, que pudesse estabelecer o contacto por ele. Passa a vendedora que vira inicialmente e o vendedor aponta para ela. Mas não parece muito convencido. Será que não confia nela? Mas que confiança especial é necessária para fazer (provavelmente por telefone) uma simples encomenda? Estas dúvidas, porém, ponho-as agora, em que tudo me parece absurdo, não na altura.
O silêncio é cortado por uma música que surge do nada e invade a loja, crescendo. Abba?!
Sábado de manhã. Os Abba cantam a partir do telemóvel pousado na minha mesa-de-cabeceira. Onde estava eu com a cabeça para pôr semelhante toque? E o relógio a dizer "é tão cedo" na sua linguagem de algarismos.
Olho para o visor: Cátia. A minha prima. Mas que me quer ela a esta hora?
"Estou?"
Eu sou mais directa, e com uma voz ensonada e muito irritada, limito-me a "Diz!"
"Acordei-te?"
Só me faltava esta. Claro que acordaste... "Diz!!", agora num tom mais duro.
"Podes ir ter ao meu carro? Tocou aqui uma senhora a dizer que o marido me bateu no carro. Eu bem sentia que ele não tinha ficado ali bem."
"Ali" era o fim de uma curva, onde sempre ficaram carros estacionados sem qualquer problema. Mas a minha prima, desde o momento em que puxou o travão de mão e trancou o carro que o sentiu mal estacionado. E, pelos vistos, tinha razão.
"Já lá vou ter."
Visto-me à pressa, prendo o cabelo, calço umas sapatilhas e saio a correr. Junto ao carro da minha prima está outro carro, quatro piscas ligados, duas crianças no interior e um casal cá fora. Deviam ter cinquenta anos, ou pelo menos vestiam-se como tal. Ou foram pais muito tarde ou os putos são emprestados (na melhor das hipóteses), porque são ainda pré-adolescentes.
Da minha prima nem sinal.
"A menina é a dona do carro?"
"Não, sou a prima da dona."
A mulher olha para mim com ar irritado. Isto de facto soou um pouco mal.
"Sou mesmo a prima da dona, ela ligou-me para vir também, deve estar aí a chegar."
Olho para trás, mas nem sinal da minha prima. O rosto da senhora amenizou-se, mas mantinha um ar de preocupação. O marido olhava para a amolgadela que tinha no carro dele, depois olhava para o carro da minha prima, intacto, e voltava para a amolgadela. Não consegui perceber se ele estava aliviado ou irritado, porque o seu rosto tinha a expressividade de um actor de novela portuguesa.
"Olhe, a culpa é toda minha", começou a contar a mulher, agitando muito as mãos enquanto falava. "É minha porque vinha a conversar com o meu marido, a dizer-lhe para ele ter cuidado, ainda há pouco ouvimos na rádio falar de um acidente e eu vinha a dizer-lhe 'vai com atenção', porque hoje em dia todo o cuidado é pouco e é preciso mil olhos e mesmo assim as coisas acontecem..."
Começo a compreender a causa do acidente. Com tanto palavreado até eu começo a perder o norte.
"... e ele até nem tem o hábito de acelerar, é muito cuidadoso, mas é distraído, e já não é a primeira nem a segunda vez que apanhamos um susto. Claro que às vezes são os outros, anda por aí muita gente que não devia ter carta, são uns criminosos, mas a esses a polícia não vê, mas a nós ser for preciso mandam logo parar e vasculham tudo na caça da multa."
Interrompo-a. "Vem lá a minha prima." E, de facto, lá vinha. Mas não parecia vir de casa, parecia que passara ainda pelo cabeleireiro e pela esteticista. Não admira que tivesse demorado esta eternidade. É que a minha prima é do género de rapariga que põe baton e perfume antes de fazer um telefonema. Bom, eu cá costumo tirar os óculos, mas já é um reflexo condicionado...
Com a chegada da minha prima, a senhora (após as necessárias saudações) recomeça o seu conto, por outras palavras, mas que me dispenso de transcrever aqui na íntegra, preferindo ir directamente ao assunto (as reticências representam longas divagações sobre o tema colocado entre parêntesis):
"Quando o meu marido vinha a fazer a curva ... (velocidade) eu vi o carro estacionado (estacionamentos e multas; "não leve a mal, menina, que o seu está bem estacionado, e blá blá blá) e gritei "cuidado" ... (histórico de todas as situações anteriores em que o grito de cuidado foi fundamental para a salvação de inúmeras vidas) e o meu marido assustou-se ... (aqui a senhora, não sei bem por que caminhos, chegou à história de uma vizinha que caíra das escadas) e deu uma guinada para se desviar, mas pensou que eu tinha visto um carro a vir em sentido contrário ... (o sol da manhã e o uso de óculos escuros; o preço das consultas de oftalmologia; as listas de espera) e em vez de se desviar para o meio da estrada, desviou-se para a berma e bateu no seu carro, menina."
Terminado o longo relato, fomos ver os estragos. De acordo, os senhores foram honestos e sérios. Poderiam muito bem ter ido embora sem dizer nada, como a maioria faz. Mas a verdade é que, neste caso, realmente poderiam ter ido embora, porque os danos no carro da minha prima só podiam ser detectados com recurso a lupa. Tenho a sensação que ela nunca daria conta que aqueles riscos (ténues como algumas gravuras de Foz-Coa) ali estavam.
O senhor sugeriu o preenchimento dos papéis amigáveis. A minha prima, no entanto, teve o bom senso de sugerir que não valia a pena o trabalho. Os estragos no seu carro eram mínimos, por isso não valia a pena envolver as seguradoras no caso. "Cada um trata do seu", rematou.
Quando pensei que tudo estaria resolvido, eis que toca o telemóvel do senhor. Este, como não podia atender, passa-o à mulher "é a tua irmã" e volta a olhar, comovido, para os ferimentos do carro. As duas crianças dão sinal de vida e decidem sair para ver os estragos. A conversa da senhora ao telemóvel arrisca-se a acordar a vizinhança. Naquele tom, poderia falar directamente com a pessoa, sem recurso a máquinas. Olho em volta e deparo-me com o vizinho do terceiro esquerdo a espreitar da janela e a vizinha do segundo direito do prédio da minha prima a olhar debruçada no gradeamento da varanda, acabada de acordar. E, no prédio em frente (ou seja, no meu), o palerma do engenheiro a olhar para a vizinha do segundo direito, logo ele que é tão metediço e se costuma envolver nestas questões públicas. Hoje, que até dava jeito que viesse até cá, fica pasmado a olhar para os ombros nus e o colo de bronze da sedutora Julieta.
“Ai, a sério? Morreu? Mas como?” – ouço a mulher dizer ao telemóvel, antes de se virar para o marido e “o Ernesto morreu.”
“Qual Ernesto?” O homem continuava de olhar preso nas amolgadelas.
“O meu primo, o filho da minha tia Ermelinda.”
“Ah, está bem.”
Pausa. Olho para a minha prima. A minha prima olha para mim. As crianças olham para a mulher, a mulher para o marido, o marido para o carro. Finalmente, o marido liberta-se do transe e pergunta “e morreu como? Estava doente?”
“Não. Matou-se, vê lá tu.”
“Matou-se?”
“Sim, foi para o meio do monte e matou-se, enforcou-se numa oliveira ou lá o que é.”
“Olha que chatice.”
Continuo a olhar para a minha prima e ela para mim. Isto não está a acontecer. Definitivamente, não está a acontecer. Estava eu tão bem a dormir.
A mulher termina a conversa ao telemóvel, desliga-o, devolve-o ao marido e vira-se para as crianças.
“Já viram que desgraça, meninos? Foi o acidente, agora esta notícia da morte do primo Ernesto. E nós que saímos de casa descansados, para ir ver a avó ao cemitério.
“Bom, esperavam mais uns dias e viam também o Ernesto”, pensei eu. Mas não disse.




















