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domingo, janeiro 13, 2008

Lei do tabaco

Só alguém com sérios problemas mentais poderia ter feito esta lei. E só uma Assembleia de deputados incompetentes e sem coragem nem vontade própria a poderia ter aprovado. É uma lei à medida de um país de polícias e de eunucos. Chamada a resolver uma situação em que se tratava de proteger os não-fumadores do fumo passivo, obrigando à criação de áreas específicas para fumadores, o legislador não esteve com meias medidas e quis lá saber se os fumadores tinham ou não alguns direitos também. [...]
Já andam para aí alguns zelotas preocupados em que a lei possa não ser cumprida em todo o seu rigor. E alguns descendentes mentais dos antigos 'bufos' da PIDE já se encarregaram de telefonar à polícia a denunciar fumadores. E a polícia lá acorreu, pressurosa, para reprimir à nascença a difusão deste odioso crime - que é o único não previsto no Código Penal e fomentado pelo Estado.
E lá, do seu pedestal […], de crachá pendente do cinto das calças e ar ameaçador […], já afia o dente António Nunes, o presidente dessa nova polícia chamada ASAE, cujos agentes se apresentam de camuflado negro e em estilo de brigada antiterrorista para inspeccionar restaurantes e cafés do país e agora mobilizada para o combate a este novo crime.
A lei, aliás, parece feita de encomenda para o senhor da ASAE. O homem que promete acabar de vez com as bolas de Berlim nas praias, os pastéis de bacalhau nas tascas e os doces de fabrico caseiro nos cafés, que jura guerra às colheres de pau nas cozinhas e que promove um mundo totalmente plastificado - colheres, copos, luvas, embalagens para tudo - e que suspira filosoficamente que a "dura lex, sed lex" o vai obrigar a fechar metade dos restaurantes do país, não podia ser mais adequado a esta nobre tarefa de perseguir os fumadores em todas as feiras, chafaricas e recantos do país profundo. […]
[…] temos a ASAE e o seu exército de camisas negras com as narinas devidamente treinadas para cheirar qualquer resquício de fumo a léguas de distância. E temos os eternos 'bufos' disponíveis para denunciar nem que seja o velhote que há anos se senta na mesma mesa da tasca do bairro para jogar dominó com os amigos e acender um cigarro para queimar o frio e a tristeza. A tristeza por viver num país onde se respeita tão pouco a liberdade dos outros.
Miguel Sousa Tavares, Expresso

A ler


"Num caso e noutro, o referendo e o aeroporto, os governantes mentiram, desdisseram-se, negaram o que tinha afirmado, mudaram de opinião e de certezas, voltaram atrás, disseram que não tinham dito, não era bem assim, só queriam dizer que era isto e não aquilo... Neste exercício de garantir o que não é evidente para ninguém e de negar o que disse e prometeu, Sócrates foi absolutamente excelente. Revelou a convicção de um vendedor de persianas. Portou-se com a inocência de um escuteiro. Sócrates está convencido de que pode vender o que quiser a quem quer que seja. Basta ele falar, controlar a informação, negar a evidência, garantir as suas certezas e elogiar o produto!Como os governantes não mudam de estilo nem de sistema, a não ser que a isso sejam forçados, já não vale a pena esperar pelos efeitos correctores desta semana nos seus comportamentos. Mas a população assistiu. Viu. Pôde tirar conclusões. Se, como os animais, os homens aprendessem com a experiência, esta semana teria sido gloriosa. Ficaria na história como um dos momentos altos de aprendizagem da arte de ser governado. Perder-se-ia rapidamente a confiança em Sócrates. Este Governo teria o desfavor público. A competência técnica, a seriedade e as promessas do Governo passariam a ser motivo de gargalhada e desprezo. Infelizmente, parece que os homens em geral e os portugueses em particular não são como os animais. Não aprendem." (Barreto)


"Entretanto, o país cai, o pessimismo dos portugueses cresce e a economia está praticamente em coma. O ano de 2008 vai ser mau e, provavelmente, péssimo. O cidadão comum sabe que depende do preço do petróleo e do que suceder na América e em Espanha. A insegurança é grande. O que, em princípio, prejudicaria Sócrates. Mas não. Sócrates vive da insegurança. Cada vez que lhe chamam autoritário, cada vez que (justamente) o acusam de pôr em perigo a democracia e a liberdade, os portugueses, como de costume, agradecem a existência providencial de um polícia. Um polícia que manda e que proíbe; e que fala pouco. Não querem a barafunda por cima da miséria; e preferem a miséria à barafunda. Num mundo instável e confuso, Sócrates sossega. O resto é acessório." (Vasco Pulido Valente)

citados aqui.

*

Textos excelentes para uma aula de cidadania. Amanhã, que é Segunda-feira, à hora de sempre e na sala de sempre.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

"determinar a imprescindível desinfecção do cu da galinha"




"Uma coisa é reprimir infracções verificadas (falta de limpeza, mixórdia, deterioração, gato por lebre, fuga ao fisco...) e responsabilizar exemplarmente os seus autores, outra é querer preveni-las em absoluto e em abstracto, metendo insensatamente no mesmo saco tanto o que pode ser muito grave como o que não tem importância nenhuma. Uma coisa é o controlo de regras básicas de higiene e segurança alimentar, outra o vezo inquisitorial sem critério ou discriminação, em nome do politicamente correcto, da rastreabilidade e do Estado da colher de pau.

A carne fica oito a dez dias em vinha de alhos, numa receita de Lamego; a perdiz é de comer "com a mão no nariz"; a caça não sai propriamente dos matadouros; a temperatura das mãos que amassam certos queijos artesanais é determinante da sua qualidade; há vinhos que envelhecem em barricas de madeira de há muito impregnadas; a culinária caseira, só viável como actividade de subsistência se fornecer restaurantes (o que, aliás, o fisco pode sempre controlar), é um repositório riquíssimo que inevitavelmente se perderá se não puder continuar nos termos em que existe; e assim por diante...

Se tudo isso e muito mais for proibido, ou plastificado, liofilizado, higienizado até ao ridículo, nem por isso aumentará a segurança alimentar, mas em compensação dar-se-á uma destruição obstinada e sistemática do património cultural e do tecido económico.Esse fundamentalismo de sinal totalitário tem tanto de delirante como de missão impossível. A menos que, um dia destes, a ASAE resolva mandar os clientes andarem sem sapatos nos restaurantes e criar uma inspecção para o teor dos sulfatos de peúga; verificar com uma zaragatoa, à entrada, a limpeza das mãos deles e se trazem as unhas de luto; impor uma lavagem do dinheiro em espécie e dos cartões de crédito antes de entregues para pagar a conta; proibir toalhas e guardanapos de pano nas mesas; obrigar os empregados a usarem escafandro e o cozinheiro a encapuzar-se para evitar que espirre para cima do esparguete; e, last but not least, determinar a imprescindível desinfecção do cu da galinha antes de ela pôr os ovos..."

"...que homem é este que nos governa que não hesita em enganar-nos de forma tão deliberada, com tanta desfaçatez, e desprezo pelos outros? É sem dúvida um homem perigoso."

(JPP)


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Curioso. Agora que as aulas chegaram aos autoritarismos (Anos 20 e 30), e vamos abordando as várias características destes regimes, são muitos os comentários de alunos relacionando essas características com o nosso governo e o nosso primeiro-ministro. Está lá muita coisa, realmente: culto do chefe (RTP), censura (ausência de notícias contrárias ao "governo" e de críticas à actuação de Sócrates na Europa e por cá), autoritarismo (abuso de poder, arrogância, ameaças..., leis absurdas e complementares actuações da ASAE cheias de "excesso de zelo", um belo eufemismo), propaganda (RTP RTP RTP RTP), ausência de liberdade de expressão (caso Charrua), anti-democracia (para além das habituais mentiras eleitorais, promessas que se sabia nunca seriam cumpridas, há o desrespeito pela vontade popular expressa em voto, como se viu no referendo do aborto repetido até sair o resultado que o governo queria, como se vê nos constantes ataques a Jardim e à Madeira) e, para finalizar, o totalitarismo, ou seja, a tentativa metódica por parte do Estado de manipular e limitar a vida pessoal e o livre-arbítrio dos cidadãos, em nome de "mais altos valores", neste caso, o valor da "saúde" imposto à força com a lei do tabaco...). Só não há militarismo, imperialismo (este está a cargo da UE) nem anti-comunismo porque são politicamente incorrectos.

E os alunos percebem, associam. Espero boas notas.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Cara de pau (como se fosse uma surpresa)


"Inspector-geral da ASAE fotografado a fumar com lei já em vigor" (Público)

Das duas uma, ou a lei não é para cumprir e é só para europeu ver, ou este senhor deverá pagar a respectiva multa e dar o exemplo. Como isso, obviamente não vai acontecer, espero que mais ninguém seja obrigado a pagar uma multa absurda.
*

Teoria da conspiração: A ASAE é mais um dos sintomas da transformação de Portugal num regime cada vez mais totalitário. Estes regimes, diz a História, precisam sempre de forças da sua confiança. Sócrates, naturalmente, não confia nem na PSP nem na Judiciária (ou vice-versa). Nos últimos anos foram retiradas competências a estas polícias. Disso se tem falado muito a propósito da incapacidade de operar contra o grande crime no Porto. As operações de pequena criminalidade, que muitas vezes permitiam chegar à grande criminalidade através da obtenção de informações e de ligações entre suspeitos, caíram nas mãos da ASAE, promovida de grupo de fiscais para uma nova força policial. Usam armas (com que preparação?) e foram devem o que são ao governo, a quem obviamente se manterão fiéis.