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domingo, janeiro 13, 2008

Lei do tabaco

Só alguém com sérios problemas mentais poderia ter feito esta lei. E só uma Assembleia de deputados incompetentes e sem coragem nem vontade própria a poderia ter aprovado. É uma lei à medida de um país de polícias e de eunucos. Chamada a resolver uma situação em que se tratava de proteger os não-fumadores do fumo passivo, obrigando à criação de áreas específicas para fumadores, o legislador não esteve com meias medidas e quis lá saber se os fumadores tinham ou não alguns direitos também. [...]
Já andam para aí alguns zelotas preocupados em que a lei possa não ser cumprida em todo o seu rigor. E alguns descendentes mentais dos antigos 'bufos' da PIDE já se encarregaram de telefonar à polícia a denunciar fumadores. E a polícia lá acorreu, pressurosa, para reprimir à nascença a difusão deste odioso crime - que é o único não previsto no Código Penal e fomentado pelo Estado.
E lá, do seu pedestal […], de crachá pendente do cinto das calças e ar ameaçador […], já afia o dente António Nunes, o presidente dessa nova polícia chamada ASAE, cujos agentes se apresentam de camuflado negro e em estilo de brigada antiterrorista para inspeccionar restaurantes e cafés do país e agora mobilizada para o combate a este novo crime.
A lei, aliás, parece feita de encomenda para o senhor da ASAE. O homem que promete acabar de vez com as bolas de Berlim nas praias, os pastéis de bacalhau nas tascas e os doces de fabrico caseiro nos cafés, que jura guerra às colheres de pau nas cozinhas e que promove um mundo totalmente plastificado - colheres, copos, luvas, embalagens para tudo - e que suspira filosoficamente que a "dura lex, sed lex" o vai obrigar a fechar metade dos restaurantes do país, não podia ser mais adequado a esta nobre tarefa de perseguir os fumadores em todas as feiras, chafaricas e recantos do país profundo. […]
[…] temos a ASAE e o seu exército de camisas negras com as narinas devidamente treinadas para cheirar qualquer resquício de fumo a léguas de distância. E temos os eternos 'bufos' disponíveis para denunciar nem que seja o velhote que há anos se senta na mesma mesa da tasca do bairro para jogar dominó com os amigos e acender um cigarro para queimar o frio e a tristeza. A tristeza por viver num país onde se respeita tão pouco a liberdade dos outros.
Miguel Sousa Tavares, Expresso

A ler


"Num caso e noutro, o referendo e o aeroporto, os governantes mentiram, desdisseram-se, negaram o que tinha afirmado, mudaram de opinião e de certezas, voltaram atrás, disseram que não tinham dito, não era bem assim, só queriam dizer que era isto e não aquilo... Neste exercício de garantir o que não é evidente para ninguém e de negar o que disse e prometeu, Sócrates foi absolutamente excelente. Revelou a convicção de um vendedor de persianas. Portou-se com a inocência de um escuteiro. Sócrates está convencido de que pode vender o que quiser a quem quer que seja. Basta ele falar, controlar a informação, negar a evidência, garantir as suas certezas e elogiar o produto!Como os governantes não mudam de estilo nem de sistema, a não ser que a isso sejam forçados, já não vale a pena esperar pelos efeitos correctores desta semana nos seus comportamentos. Mas a população assistiu. Viu. Pôde tirar conclusões. Se, como os animais, os homens aprendessem com a experiência, esta semana teria sido gloriosa. Ficaria na história como um dos momentos altos de aprendizagem da arte de ser governado. Perder-se-ia rapidamente a confiança em Sócrates. Este Governo teria o desfavor público. A competência técnica, a seriedade e as promessas do Governo passariam a ser motivo de gargalhada e desprezo. Infelizmente, parece que os homens em geral e os portugueses em particular não são como os animais. Não aprendem." (Barreto)


"Entretanto, o país cai, o pessimismo dos portugueses cresce e a economia está praticamente em coma. O ano de 2008 vai ser mau e, provavelmente, péssimo. O cidadão comum sabe que depende do preço do petróleo e do que suceder na América e em Espanha. A insegurança é grande. O que, em princípio, prejudicaria Sócrates. Mas não. Sócrates vive da insegurança. Cada vez que lhe chamam autoritário, cada vez que (justamente) o acusam de pôr em perigo a democracia e a liberdade, os portugueses, como de costume, agradecem a existência providencial de um polícia. Um polícia que manda e que proíbe; e que fala pouco. Não querem a barafunda por cima da miséria; e preferem a miséria à barafunda. Num mundo instável e confuso, Sócrates sossega. O resto é acessório." (Vasco Pulido Valente)

citados aqui.

*

Textos excelentes para uma aula de cidadania. Amanhã, que é Segunda-feira, à hora de sempre e na sala de sempre.

de baixo nível


Não é possível qualificar de outro modo a atitude rastejante dos dirigentes do barcelona de retirar a cruz do seu emblema para entrar no mercado muçulmano. Quer o façam por motivos meramente económicos, quer o façam por pura cobardia, ambas as hipóteses revelam falta de nível e de respeito pela sua instituição. Eu, se fosse adepto desse clube (algo tão improvável como ser militante socialista), sentiria vergonha e certamente escolheria outro clube com dirigentes mais dignos. É inconcebível pertencer a uma instituição que não respeita os seus próprios símbolos, a sua própria identidade, por pura cobardia ou por meros interesses económicos. É como ter vergonha do próprio nome. Ainda por cima para agradar a quem é. Pois se os "muçulmanos" se sentem ofendidos por uma cruz no emblema, isso é problema deles. Ou deveria ser. Duvido que clubes como o AC Milan (este "claramente de outra divisão"), o Belenenses ou o Paços de Ferreira descessem tão baixo.





Sorrisos bonitos, para que servem afinal?


Tantas vezes me disseram "tens um sorriso lindo" um instante antes de virarem costas e desaparecerem. Seria uma forma de se despedirem? E o sorriso no meio do adeus, o que é, afinal? Gaivotas que riscam círculos brancos no céu sobre o navio que parte? O lenço que se agita? A mão que acena? Os violinos que enchem a sala na última dança, prolongando a música, fazendo-a quase (quase) eterna nos corações? A lágrima que não escorre por vergonha ou timidez? Ou será o sorriso a carga que levam na mala, a recordação de mim que serve sobretudo para embelezar o passado, de forma que possam olhar para trás sem lamentos, pensando "foi bom" só porque o meu sorriso lhes era oferecido e os seus corações ficavam felizes, sorrindo também entre duas batidas?

A verdade é que não sou uma estátua sentada a sorrir, branca, esquecida no canto de uma sala. Há momentos em que o que menos quero é sorrir, em que o que menos preciso é de sorrir. Só que nesses momentos que vos acontece? Perguntam por mim e a mim parece-me que não perguntam por mim, mas pelo meu sorriso. É preciso sorrir, mesmo que esteja triste, o sorriso é a aspirina da alma, toma-se e já está, tudo passou, tudo está bem. Não é verdade. Há momentos em que a dor é tão grande que o que vocês tomam por sorriso é um esgar de dor contida, amordaçada. Mas como o que se vê é quase um sorriso, todos satisfeitos e muda-se de assunto. Assim, sem mais.

Tantas vezes vos disse, claro que sem falar, que o sorriso era um grito, que se era bonito era porque todo ele foi esperança e sonho e agora é um pouco menos, é esperança e sonho de voltar a ser o que era. É confuso, eu sei. É confuso como é confuso tudo isto cá dentro, por detrás do sorriso onde pára o vosso olhar.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

"determinar a imprescindível desinfecção do cu da galinha"




"Uma coisa é reprimir infracções verificadas (falta de limpeza, mixórdia, deterioração, gato por lebre, fuga ao fisco...) e responsabilizar exemplarmente os seus autores, outra é querer preveni-las em absoluto e em abstracto, metendo insensatamente no mesmo saco tanto o que pode ser muito grave como o que não tem importância nenhuma. Uma coisa é o controlo de regras básicas de higiene e segurança alimentar, outra o vezo inquisitorial sem critério ou discriminação, em nome do politicamente correcto, da rastreabilidade e do Estado da colher de pau.

A carne fica oito a dez dias em vinha de alhos, numa receita de Lamego; a perdiz é de comer "com a mão no nariz"; a caça não sai propriamente dos matadouros; a temperatura das mãos que amassam certos queijos artesanais é determinante da sua qualidade; há vinhos que envelhecem em barricas de madeira de há muito impregnadas; a culinária caseira, só viável como actividade de subsistência se fornecer restaurantes (o que, aliás, o fisco pode sempre controlar), é um repositório riquíssimo que inevitavelmente se perderá se não puder continuar nos termos em que existe; e assim por diante...

Se tudo isso e muito mais for proibido, ou plastificado, liofilizado, higienizado até ao ridículo, nem por isso aumentará a segurança alimentar, mas em compensação dar-se-á uma destruição obstinada e sistemática do património cultural e do tecido económico.Esse fundamentalismo de sinal totalitário tem tanto de delirante como de missão impossível. A menos que, um dia destes, a ASAE resolva mandar os clientes andarem sem sapatos nos restaurantes e criar uma inspecção para o teor dos sulfatos de peúga; verificar com uma zaragatoa, à entrada, a limpeza das mãos deles e se trazem as unhas de luto; impor uma lavagem do dinheiro em espécie e dos cartões de crédito antes de entregues para pagar a conta; proibir toalhas e guardanapos de pano nas mesas; obrigar os empregados a usarem escafandro e o cozinheiro a encapuzar-se para evitar que espirre para cima do esparguete; e, last but not least, determinar a imprescindível desinfecção do cu da galinha antes de ela pôr os ovos..."

Enfim...

*
O M.E. faz uma auto-avaliação positiva do seu trabalho em 2007. Se dúvidas havia sobre a total incapacidade do M.E. para avaliar o que quer que seja, presumo que estejam agora postas de lado.
*
Falar dos cursos ditos profissionais (não são...) como algo de positivo também já não merece comentários.
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Mas é de sublinhar a modernização "física e tecnológica" das escolas. Onde? Em que escolas? Será que aqui se passou assim e andamos todos distraídos? Vamos fazer uma listagem, para não sermos injustos.
*
modernização física:
- foram pintadas duas paredes;
- há um balcão novo na reprografia;
- há um balcão tipo talho no bar da sala dos profs;
- deixou de haver sala de fumadores;
- um pavilhão a cair de velho foi entregue pela câmara para aulas de E. Física;
- há duas novas salas, ambas sem quadro onde escrever (porque os quadros de giz foram retirados e não há ainda quadro branco);
- duas arrecadações foram transformadas em sala de electricidade (as máquinas grandes são montadas na rua por falta de espaço) e de música;
- a biblioteca tem portas novas e aguarda estantes, embora continue sem verbas para livros;
- os funcionários têm batas novas;
*
modernização tecnológica:
- a escola tem 2 quadros interactivos sem o software que permita a sua utilização;
- a escola tem vários pcs com linux (permitindo a desconfiguração automática dos trabalhos feitos em casa em office);
- há um portão automático;
- há uma rede de internet sem fios que não se pode utilizar nos portáteis pessoais porque ninguém tem acesso ao código;
- não há equipamento para um aluno com paralisia cerebral porque, segundo consta, para o ministério, "era demasiado caro";
- há cartões electrónicos que só funcionam quando são accionados à entrada, numa máquina que está à chuva (muito prático para os alunos fazerem fila à espera de vez quando descem dos autocarros);
- há uma plataforma moodle que praticamente ninguém usa.
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Enfim...

excelente pergunta

"Stor, quais são as probabilidades de o sócrates cair de uma cadeira?"

"...que homem é este que nos governa que não hesita em enganar-nos de forma tão deliberada, com tanta desfaçatez, e desprezo pelos outros? É sem dúvida um homem perigoso."

(JPP)


*

Curioso. Agora que as aulas chegaram aos autoritarismos (Anos 20 e 30), e vamos abordando as várias características destes regimes, são muitos os comentários de alunos relacionando essas características com o nosso governo e o nosso primeiro-ministro. Está lá muita coisa, realmente: culto do chefe (RTP), censura (ausência de notícias contrárias ao "governo" e de críticas à actuação de Sócrates na Europa e por cá), autoritarismo (abuso de poder, arrogância, ameaças..., leis absurdas e complementares actuações da ASAE cheias de "excesso de zelo", um belo eufemismo), propaganda (RTP RTP RTP RTP), ausência de liberdade de expressão (caso Charrua), anti-democracia (para além das habituais mentiras eleitorais, promessas que se sabia nunca seriam cumpridas, há o desrespeito pela vontade popular expressa em voto, como se viu no referendo do aborto repetido até sair o resultado que o governo queria, como se vê nos constantes ataques a Jardim e à Madeira) e, para finalizar, o totalitarismo, ou seja, a tentativa metódica por parte do Estado de manipular e limitar a vida pessoal e o livre-arbítrio dos cidadãos, em nome de "mais altos valores", neste caso, o valor da "saúde" imposto à força com a lei do tabaco...). Só não há militarismo, imperialismo (este está a cargo da UE) nem anti-comunismo porque são politicamente incorrectos.

E os alunos percebem, associam. Espero boas notas.

terça-feira, janeiro 08, 2008



Confesso que para mim o dia 1 de Janeiro não significa balanços do ano anterior, nem tão pouco definição de projectos para o ano que se segue. É mais um dia, após o anterior... Mas somos sempre apanhados nisto das listas dos livros favoritos, dos filmes marcantes desse ano... enfim, as listas, os balanços, as tretas do costume. Não vou falar de 2007, mas sim do 1º livro de 2008. Apanharam-me!

Li, com um prazer que não adivinhava, o livro de Miguel Real, O Último Minuto na Vida de S.
Que encantador exercício de escrita.
Recomendo. Por todos os motivos: uma história de amor, sem pieguices confrangedoras; uma prosa tão poética quanto limpa; um retrato de uma época, com factos históricos incontornáveis e inquietantes.
Real(mente) os livros não se qualificam pelo tamanho...

domingo, janeiro 06, 2008

Guia do Público sobre onde fumar

... em Coimbra:
"A poltrona está isolada, virada para a janela que dá para o jardim. Ao fundo da biblioteca, uma sala oitocentista cheia de livros antigos, há uma lareira. É o cenário ideal para o famoso "pensativo cigarro" de que falava Eça de Queirós. Os fumadores conhecem-no: é aquele que se aspira em silêncio, numa aparente ausência, enquanto se tenta organizar pen-samentos e ideias. Pois bem, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, este ambiente existe: o hotel decidiu re-servar uma sala especial para os amantes do fumo, onde o vício poderá ser desfrutado com toda a elegância e dignidade [...] numa sala envidraçada com acesso à biblioteca e vista privilegiada para a colina sobre a qual se ergue a cidade. Esta recriação de uma "sala de fumo" queirosiana, onde os fumadores se dirigiam após as refeições, já está aberta a hóspedes e não hóspedes. A directora da Quinta das Lágrimas, Teresa Lopes, não fuma, mas, quando fala da iniciativa, até parece que o faz, usando vocabulário e expressões que traduzem o encanto, agora mais quebrado, do velho vício: "A Quinta das Lágrimas é um local de descanso, de lazer, acolhedor, cheio de lareiras, onde apetece puxar um charuto, fumar... Claro que a lei é benéfica em termos de saúde pública, mas para quem é fumador é um bocadinho constrangedor ir para um local tão bonito e não poder praticar esse acto, não poder desfrutar desse acto livremente sem problemas de consciência", diz, enquanto mostra a divisão em tons de amarelo desmaiado e azul-escuro. Ali, naquela sala, com acesso à biblioteca e à varanda da capela, pode fumar-se à vontade, enquanto se bebe um café, um digestivo, se conversa ou medita. Mais: qualquer pessoa pode, até à meia-noite, usufruir do espaço, embora os hóspedes tenham, para além disso, quartos com varandas e jardins privados para se deleitarem com o "prazer do tabaco" sem que ninguém os recrimine. [...] Trata-se tão-só de fazer jus à história secular do palácio, onde já fumaram o duque de Wellington, o escritor Eça de Queirós, o rei D. Miguel e o político e escritor Teófilo Braga. Para quem quiser, porém, almoçar ou jantar, ou beber um copo e fumar, em locais menos luxuosos do que a Quinta das Lágrimas, há o restaurante Taberna, no Parque Verde do Mondego, com vista sobre o rio, e, uns metros adiante, o Irish Pub, com música ao vivo e cerveja para todos os gostos. Outro sítio onde os fumadores se sentirão abrigados, em Coimbra, é a Galeria-Bar Santa Clara, que também destinou aos prazeres do tabaco uma aconchegante sala com salamandra. Já para o apressado café da manhã, há a pastelaria S. José, na Solum, onde ainda se pode ingerir a dose matinal não recomendada de cafeína e nicotina."

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Cara de pau (como se fosse uma surpresa)


"Inspector-geral da ASAE fotografado a fumar com lei já em vigor" (Público)

Das duas uma, ou a lei não é para cumprir e é só para europeu ver, ou este senhor deverá pagar a respectiva multa e dar o exemplo. Como isso, obviamente não vai acontecer, espero que mais ninguém seja obrigado a pagar uma multa absurda.
*

Teoria da conspiração: A ASAE é mais um dos sintomas da transformação de Portugal num regime cada vez mais totalitário. Estes regimes, diz a História, precisam sempre de forças da sua confiança. Sócrates, naturalmente, não confia nem na PSP nem na Judiciária (ou vice-versa). Nos últimos anos foram retiradas competências a estas polícias. Disso se tem falado muito a propósito da incapacidade de operar contra o grande crime no Porto. As operações de pequena criminalidade, que muitas vezes permitiam chegar à grande criminalidade através da obtenção de informações e de ligações entre suspeitos, caíram nas mãos da ASAE, promovida de grupo de fiscais para uma nova força policial. Usam armas (com que preparação?) e foram devem o que são ao governo, a quem obviamente se manterão fiéis.

terça-feira, janeiro 01, 2008

momentos após conhecer o primeiro-ministro português...


à atenção do sr sócrates (força, Slash)










Um gesto de liberdade


Juntos ou separados

É noite e a casa está vazia. Imagino que seja noite. Tenho tudo fechado desde que foste embora. Mas tenho quase a certeza que é noite, porque não ouço os carros na rua (só um, a espaços, vai passando). Hoje finalmente consegui entrar no quarto onde... E é lá que estou agora. Quando abri a porta fui invadido pelo teu cheiro, fugindo da escuridão onde o tinha aprisionado. Não era o teu perfume, mas o cheiro da tua pele. Ainda enche o quarto, como me encheu os pulmões. Assustei-me, porque não esperava sentir-te ali.
Acendi a luz. A primeira coisa que vi foi a cama. Por muito que não a quisesse ver, lá estava ela, impecável na sua colcha. Nem um vinco, nem um centímetro descentrada. E, no topo, as duas almofadas. Para quê duas almofadas se já não estás? Para quê uma, sequer, se já não durmo? E muito menos dormirei aqui, seria o mesmo que ir dormir à tua porta, à tua nova porta e o chão é demasiado frio para mim. Na parede, sobre as almofadas, estão as marcas de dois caixilhos encimados por um pontinho negro. Era ali que tínhamos pendurado os nossos retratos. O teu tiraste-o. O meu, quebrei-o porque não gosto de coisas incompletas. Deve ser por isso que não gosto de mim. E de ti.


Afasto o olhar da cama. Observo a janela fechada. Naquele parapeito passámos horas à espera do pôr-do-sol, ouvindo os sons da cidade. E quando os sinos de Santa Cruz ou o badalar da torre se ouviam, tu sorrias e eu sorria contigo, saboreando esse travo de passado que nos adoçava o espírito. Só nos faltava uma vista para o rio para sermos personagens de um romance.


Caminho pelo quarto. Passo pelo guarda-fatos, ignoro-o como se ignora uma caixa de sapatos vazia. Sento-me na cama, tendo o cuidado de não quebrar a sua ordem imaculada. O olhar sobe do tapete, que sempre achei feio, para a cómoda. Vejo-me no espelho e sinceramente acho que não sou eu. Surpreendeu-me a minha aparência. Se calhar foi por isso que foste embora, se calhar nesse dia chegaste a casa, olhaste-me e não era eu. Encolho os ombros. Para quê atormentar-me mais? Foste embora, és passado. Estamos separados. Mesmo que voltes, já não existes para mim. Estou indisponível. Indisponível, percebes? A janela está permanentemente fechada, o guarda-fatos permanentemente vazio e o quarto para sempre fechado. A partir de hoje é assim que será. E tu, em consequência, ficas para sempre fora do meu pensamento. Mesmo quando soarem as badaladas da torre. Chamo-lhe cabra, como faziam os estudantes, e ela cala-se e não me fala mais de ti, não volta a dizer o teu nome naquele linguajar Dong Dong de metal oco. Está tomada a decisão. Esqueço-me então de ti. Afinal é fácil, basta querer, basta tentar e está feito.


Atraído por um cintilar, afasto o olhar do meu reflexo. Olho para a cómoda à minha frente. Só hoje reparei nas gavetinhas falsas. Três ilusões dispostas lado a lado, com um puxador em cada. Puxo o da esquerda. Nada. O da direita. Nada. O do meio. Nada? Afinal é uma gaveta verdadeira. Abro-a totalmente. Há algo que brilha no seu interior. Parecem jóias. Coloco a mão e tiro-as para fora. São dois colares, que disponho sobre a cómoda. Fecho novamente a gaveta e fico a olhar. A pensar. Afinal... Se calhar não te foste mesmo embora. Se calhar estamos ... estamos juntos. Deito-me na cama e sorrio com este pensamento. Vou ficar aqui à tua espera, à espera que entres em casa, caminhes para o quarto e abras a janela antes de te deitares ao meu lado. Mas vem depressa, porque devem estar quase a soar as badaladas da torre.

zapping

Mais de 120 mortes no Quénia nas últimas 24h, no Paquistão as imagens do momento da morte de B. Butto continuam a causar uma onda de crispação... maior banco privado português em crise... Portugal é hoje um país mais pobre, com o desemprego a rondar os ... três pessoas morreram num acidente de viação ocorrido perto de... são 23h59 minutos ... 10...9... o ano novo em Sydney... 8...7... festejos na China ... 6...5...4... a Rússia recebeu o novo ano...3...2...1 2008 (espumante mascarado de champanhe - pop - espuma - tinir de copos brilhantes - roupas novas - fatos de gala - sorrisos de gala - aplausos - votos de felicidades e muita paz no mundo - beijos - abraços - pedacinhos de papel colorido esvoaçando - concertos em Lisboa - festejos em Portimão - fogo na Madeira) ... de volta às notícias, o número de mortos no Quénia ascende agora ... três idosos morreram num incêndio num lar... nasceu o primeiro bebé europeu (antes nascia o primeiro bebé português, mas nem Portugal existe já?) ... a nova lei do tabaco. STOP
.
Bem vindos a 2008. O Estado de Portugal é, a partir de hoje, mais totalitário do que era. Não é a Albânia que se aproxima de nós. Afinal somos nós que nos vamos aproximando dela.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

sábado, dezembro 29, 2007

inglês técnico no seu melhor

Santa ignorância. Já não basta o provincianismo que levou a chanceler alemã a desatar à gargalhada nas costas de sócrates... Temos de ser ainda mais envergonhados por um primeiro-ministro analfabeto, incapaz de decorar umas simples frases em inglês que alguém teve tanto trabalho a escrever para ele. Ouçam com atenção e pasmem.
"very proud to be here in this moment cause this act is a (!) act that we do because a portuguese company do is outmost (?) to make technological possibilities to connect the two systems, the schengen system and the data systems of the new member states. That's a double proud for me (!!?): to be here like (?) the president of the councel but also to be here because a portuguese company dou (deu? do? ò analfabeto, é gave ou did) its contribution to more freedom for Europe." Atrás todos riem, e não é de espantar. E no fim aplaudem como se aplaude um atrasadinho que "discursou" na praça da aldeia. É triste, muito triste.
Não admira que o homem tenha retirado o inglês (prioridade só no discurso propaganda) do currículo do secundário dos cursos efa e tenha feito uma lei que praticamente impede os licenciados de inglês de ensinarem inglês ao primeiro ciclo, preferindo outros menos qualificados (e mais baratos). É que qualquer criança e adulto que frequente realmente algumas aulas (um feito de que sócrates aparentemente não se pode gabar) conseguirá falar melhor inglês do que o primeiro-ministro. E isso é inaceitável. Qualquer dia ainda se começam a rir quando ele fala. Como a chanceler Angela e os outros senhores da Europa...

O espaço infinito

Desde o século XV que os Europeus iniciaram um processo de Descobertas e de exploração do mundo desconhecido. Esse trabalho prolongou-se até aos finais do séc. XIX, com a exploração do último território desconhecido, o coração da África. Depois disso, quando o Ocidente se apercebeu que ainda só conhecia um terço do planeta, os olhares viraram-se para o fundo do mar. No tempo da Guerra Fria, começou também a exploração do Espaço, que teve o seu ponto alto em 1969 com os primeiros passos humanos na superfície lunar e que cada vez mais é uma prioridade. Mas há um outro espaço a exigir exploração atenta: a enorme vastidão da ignorância de josé sócrates. Em área e profundidade, excede o planeta e os mais fundos desfiladeiros marinhos.
Há alguns dias, uns governantes menores da "Europa" (exceptuando aqui a chanceler alemã) reuniram-se para celebrar com champanhe a abertura das fronteiras a leste. Fronteiras abertas entre a Alemanha e a Polónia e até ao Báltico. Nessa ocasião, sócrates discursou. Duvido que alguém tenha escrito o discurso para ele ler. Era algo tão mau e tão oco que só podia ser produto genuíno. Merecia até um selo de certificação (algo tipo made in UNI). Também não acredito que tenha sido um discurso espontâneo, fruto do momento e influenciado pelas bolhas do champanhe. Creio que sócrates perdeu realmente tempo a pensar no que iria dizer, o que aumenta a magnitude da tragédia. Talvez pensasse nisso enquanto se barbeava, ou durante o jogging. Ou numa viagem através da via do Infante.
E o que disse o auto-intitulado engenheiro não reconhecido pela Ordem? Que esta Europa unida e sem fronteiras é um sonho de muita gente, sobretudo da sua geração. Sem dúvida. Mas que isso para ele seja motivo de alegria é algo incompreensível. Quem foram os antigos "sonhadores" de uma Europa "unida" e "sem fronteiras"? Napoleão, no século XIX, Hitler e (à sua maneira) Estaline. Que sócrates goste da companhia de tiranos é já sabido, basta recordar como preferiu Mugabe e companhia a Gordon Brown. Birds of a feather flock together (traduzindo deste inglês técnico, diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és...).

Ronaldo e Ronaldinho

"El Barça debate sobre Ronaldinho, y no me extraña. Arrojar fuera a un jugador así es difícil. (...) Pero hace mucho que Ronaldinho no se entrena. Mucho, mucho. Y no he conocido en la vida caso alguno de persona que deje de trabajar por un tiempo considerable y sea capaz de volver a hacerlo con el interés y el entusiasmo requeridos. A Ronaldinho le quedan las faltas y algún pase magistral, pero el mejor Ronaldinho ya lo hemos visto.

Es duro admitirlo, pero es así. La primavera pasada tuve una larga conversación con Capello, en plena remontada del Madrid. Me dijo: "Con Ronaldo lesionado jugábamos mal, pero íbamos a dos puntos del Barça. Volvió él, jugó, y nos pusimos a ocho. Ahora se ha ido y estamos remontando". El Madrid ganó la Liga y sólo lamentó no haber tenido el valor de prescindir de Ronaldo en verano, cuando pudo hacerlo, y por más dinero. Ronaldo se fue al Milán y con un arreón de vago arrepentido marcó algunos goles el primer mes. Pero eso duró seis semanas. Después, nada. Y el Madrid es otro. "
Chieftains & The Corrs


I know my love by his way of walking
And I know my love by his way of talking
And I know my love dressed in a suit of blue
And if my love leaves me, what will I do?

chorus:And still she cried, "I love him the best,
And a troubled mind, sure can know no rest"
And still she cried, "Bonny boys are few,
And if my love leaves me, what will I do?"

There is a dance house in Maradyke
And there my true love goes every night
He takes a strange girl upon his knee
Well now don't you think that that vexes me?

chorus

If my love knew I can wash and wring
If my love knew I can sew and spin
I'd make a coat of the finest kind
But the want of money sure leaves me behind

chorus

I know my love is an errant rover
I know he'll wander the wild world over
In dear old Ireland he'll no longer tarry
An American girl he's sure to marry

chorus

Love song to a stranger

Esta música, composta em 1972 e inspirada numa relação pessoal de Joan Baez, é um exemplo simples e (talvez por isso) perfeito do olhar poético que a cantora/compositora tinha em relação à vida. Os versos contrariam também a afirmação que a poesia de Joan Baez era má, afirmação que própria Joan atribui a Bob Dylan na canção Diamonds and Rust ("my poetry was lousy you said"). O poema descreve momentos passados num hotel, local de um encontro amoroso que, na canção, durou dois dias. Ou uma noite (tudo o que importa se passou nessa noite). Tempo impossível para que os dois amantes se pudessem conhecer, o que acaba por justificar o título do poema, canção de amor para um estranho.
O poema começa com uma interrogação pessoal

"How long since I've spent a whole night
in a twin bed with a stranger
His warm arms all around me?
How long since I've gazed into dark eyes
that melted my soul down
To a place where it longs to be?"

A narradora encontra-se à deriva, errando por caminhos que desconhece. A sua alma gelada, petrificada pela falta de rumo, encontra o lugar que anseia no olhar negro do amante, e nesse instante sente-se a derreter e a escorrer em fios de água para esse lugar.
Do amante pouco ficamos a saber. O passado não se lê no seu rosto ("all of your history has little to do with your face"), diz a narradora, para prosseguir a descrição com um dos versos mais bonitos do poema

"You're mainly a mystery with violins filling in space"

Não consigo traduzir uma frase assim. Sou mudo em poesia. A tradução literal não nos faz sentir a melodia que ouvimos. Mas quem não gostaria de ser visto como um mistério tão encantador? Ser alguém com um passado feito de notas musicais em vez de factos, datas e memórias? Ao fim ao cabo, se o que transmitimos de nós aos outros é uma composição e não a realidade, por que não deixar a arte de (nos) compor para quem nos olha, se forem assim, capazes de fazer do nada uma harmonia?
Os versos seguintes descrevem gestos que a memória (tão selectiva) guardou, o amante levantando-se e recolhendo uma rosa de um ramo para a pousar na almofada. Olhando a rosa, ela adormece com uma só preocupação:

"To know that when day broke and I woke that you'd still be there"

Que o nascer do sol não a retire novamente do lugar que sente seu e a coloque novamente à deriva.

"The hours for once they passed slowly, unendingly by
Like a sweet breeze on a field
Your gentleness came down upon me and I guess I thanked you
When you caused me to yield
We spoke not a sentence and took not a footstep beyond
Our two days together which seemingly soon would be gone"
Nessa noite as horas deixaram-se arrastar, como uma brisa suave no campo, com os dois amantes em silêncio, conscientes do fim que se aproximava.
Chega então o maior lamento da amante, um grito de raiva e um rogo.
A descrença no amor eterno e (outros sonhos tristes) mostram uma visão atormentada da existência humana, descrita como uma vida de preocupações ("a lifetime of cares") da qual só conseguem ser resgatados os estranhos apaixonados. O amor, esse, não pode existir eternamente sem ser correspondido, porque se o é, pede a amante mais uma vida inteira, para aprender.

"Don't tell me of love everlasting and other sad dreams
I don't want to hear
Just tell me of passionate strangers who rescue each other
From a lifetime of cares
Because if love means forever, expecting nothing returned
Then I hope I'll be given another whole lifetime to learn"

Para aprender a quê? A corresponder ao amor que recebeu, a ser capaz de amar de volta, de dar ao outro em proporção do que recebeu.

"Because you gave to me oh so many things it makes me wonder
How they could belong to me
And I gave you only my dark eyes which melted your soul down
To a place where it longs to be"

O que me deste foi tão maravilhoso que chego a duvidar que me possa ter pertencido. E eu apenas te dei os meus olhos negros que derreteram a tua alma, fazendo-a deslizar para um lugar onde se sentisse em casa.

*
Texto completo aqui.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Feliz Natal

Feliz Natal, sacos de compras, guizos de renas, estrelas brancas em fundo vermelho, Feliz Natal e bom ano, bolo-rei, bolo-rainha, risos de crianças, que oferecer ao pai e à mãe, e a prenda da tia, ninguém se lembrou, mensagens no telemóvel, feliz natal, bom natal, boas festas, mensagens de email mas a caixa do correio vazia, esquecida, cheia de pó. Mesmo assim, feliz natal, brinquedos para as crianças, livros para quem lê, cds para quem gosta de música, tudo caro, tudo bertrand e fnac e loja da esquina, embrulhos feitos em casa, sem as etiquetas dizendo feliz natal, prendas que falam por nós, feliz natal feliz natal, peru ou bacalhau, vinho do porto, bolo-rei, doces e cadeiras vazias de familiares que não estão, que já não estão ou que não podem estar e que estão sozinhos noutra casa, com água a escorrer quando chove e frio soprado pelo vento nas entranhas abertas das paredes velhas, feliz natal mesmo para eles e para mim e para vocês.

White Christmas


( Fotos AS)

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Ler nas entrelinhas

"É verdade, sou um provinciano, fiz-me sem pedir nada a ninguém. Não tenho aliados entre os grandes pensadores portugueses e a aristocracia de esquerda."
(josé sócrates, no Liberation, citado pelo Público online)
Tradução: Sou um boçal. "Licenciei-me" sem que ninguém me ensinasse nada. Não sou respeitado pelos grandes pensadores portugueses [o que, tendo em conta que é josé sócrates a falar, abarca 99% da população, incluindo muitos formandos EFA] nem por Mário Soares e Manuel Alegre.

terça-feira, dezembro 18, 2007

bring 'pride' back to England

Capello é uma excelente escolha para seleccionador de um país que promete sempre tanto e que acaba por desiludir. A pátria do futebol merece o melhor treinador no activo.

domingo, dezembro 16, 2007

Artigos a (re)ler

J. P. Coutinho, "A minha vingança" e J.P.Pereira, "O Meio"

ALERTA: Estupidez aumenta na Europa

Quando se espera que a estupidez típica do pensamento politicamente correcto não fosse capaz de descer a níveis ainda mais profundos, surge sempre alguém a quebrar barreiras. Desta vez o prémio de idiotice politicamente correcta deve ser dado a umas senhoras soldados (soldadas, mulheres soldado? seja lá o que as ditas forem) suecas. O símbolo do batalhão do qual fazem parte era este leão:
Aparentemente, as referidas senhoras ficaram ofendidas com a presença dos genitais do leão e levaram o "caso" (?) a tribunal. Como hoje em dia as leis europeias têm por norma a procura do absurdo, em vez de aplicar uma pena às queixosas por ofensas aos símbolos militares nacionais, o tribunal deu-lhes razão (!) e obrigou o exército a submeter o leão a uma operação informática, cujo resultado final é este:

Já várias vozes levantaram a questão mais óbvia e racional: o facto de não aparecerem os genitais não torna este leão num ser assexuado, já que a JUBA é exclusiva do leão macho!!! Burras!!! E burros que foram na conversa!
Mas como a razão não é para aqui chamada (há muito que deixou a Europa navegando pelo Atlântico) agora temos as senhoras militares suecas e os senhores militares suecos de consciência limpa, com um leão eunuco como símbolo. Presumo que, com isso, pretendam derrotar os inimigos pelo riso. E há por aí gente que quer fazer da Suécia um exemplo...
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sexta-feira, dezembro 14, 2007

60 anos de miedo escénico


O Santiago Bernabéu faz 60 anos hoje. Na feliz expressão que Valdano popularizou, este estádio provocava (e provoca) miedo escénico (medo do palco) a quem vem actuar nele. Equipas que tinham vencido os Blancos por um resultado que julgavam confortável chegavam a Madrid, entravam no estádio e, de repente, as tremuras nas pernas, o ruído ensurdecedor do público. Do outro lado da linha de meio-campo, o Real Madrid, onze atletas que chegaram onde todos os outros ambicionam chegar. A confiança dá lugar à dúvida. Quando a partida começa, os adversários percebem que actuar ali não é o mesmo que actuar em qualquer outro local. Há uma alma naquele palco que emudece, seca as bocas destes pobres actores que vêm de fora. As frases de comando não soam, a cortina sobe e os actores contemplam o abismo. O texto esquecido. Branco. Blancos. Como as camisolas dos verdadeiros actores e donos do palco. 1-0. 2-0. 3-0. 4-0. 5-0. 6-0. As famosas remontadas que fazem também elas parte do mito e da História do Real Madrid, do enredo de uma magnífica obra épica. Os visitantes, que entraram julgando-se actores, deixam relvado com a consciência de terem sido, afinal, testemunhas e figurantes. Derrotados, não deixam de lembrar o momento com orgulho. Estiveram lá. Viram e sentiram a alma do Bernabéu. Tem mais valor cair em Madrid do que ter sucesso em qualquer outro local. Tem sido assim ao longo de 60 anos. E continuará a ser.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Fazer História

A sessão de encerramento do circo do Tratado de Lisboa teve a presença de Dulce Pontes. Agindo em nome de todos os europeus anónimos e conscientes, Dulce Pontes fez o possível para rebentar os tímpanos dos políticos presentes. No entanto, esqueceu-se que eles são surdos há muito tempo. Muitos também são cegos. Só não são, infelizmente, mudos, como demonstrou josé sócrates ao fazer um longo e bocejante discurso, sem uma frase interessante, sem uma ideia, sem uma centelha de pensamento que não ultrapassasse a banalidade. "É um tratado que ficará na História." Ninguém duvida. Com sorte, nunca passará de uma nota de rodapé. Mas se tudo correr tão mal como se prevê, o tratado ficará na História. Infelizmente, pelos piores motivos. É que a História que sócrates pretende escrever (ou pretenderia, se soubesse pegar numa caneta) está cheia de tratados inúteis ou de trágicas consequências. Basta consultar uma História da Diplomacia. Ou falar de Versalhes a um alemão e a um francês.

Campeão do Mundo de Acordeão


Afinal, também temos talentos em Portugal. João Barradas tornou-se Campeão do Mundo a tocar acordeão. Com apenas 15 anos, o João conseguiu, finalmente, chegar ao topo do Mundo após ter sido várias vezes campeão nacional e ter ganho vários prémios internacionais.
Para ouvir este pequeno génio:

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Fado em Si bemol

Hoje, quarta-feira, estava sentado no meu sofá a ver um filme quando algo me atrai a atenção na televisão. Era o Pedro Matos a cantar em directo um fado num estilo predominantemente "jazzistico". Simplesmente fantástico. Para quem não sabe, o Pedro cantava no mesmo coro que eu. A grande diferença é que ele canta enquanto eu no coro apenas participava porque gostava do ambiente que se criava (coro com mais de 100 pessoas) e apenas traulitava umas notas e passava o tempo a avaliar os dotes vocais dos participantes. O Pedro era um caso único. Com uma voz fabulosa destacava-se de todos os demais e arrepiava qualquer um quando cantava a solo. Pois, ele canta tão bem, que nos concertos tinha sempre um momento para brilhar a solo. Pensava para mim: "este ganhava uma operação triunfo com uma perna às costas". Indignava-me saber que ele era tão dotado e não se dar a conhecer a um publico mais vasto. Felizmente, e sem ter conhecimento, o meu agradável espanto quando o vejo a brilhar na TV. Acabou de produzir um CD "Fado em Si Bemol" que vai ser lançado em Janeiro no mercado. Os músicos que o acompanham são excelentes. Este rapaz vai longe...
Gostos não se discutem mais oiçam e vejam algumas músicas que estão no Youtube, informações sobre o grupo e depois comentem...

terça-feira, dezembro 11, 2007

3...6...

"Otto Dix retratou, nas suas ilustrações, a guerra das três seis..."
Como? perguntam vocês, como perguntei eu também, olhando incrédulo para a folha de exercício. Voltei à folha das perguntas. Será que me enganara na questão, no aluno, na turma, na profissão (sim, certamente na profissão)? Mas depois, recordei a velha regra de quem corrige testes e textos escritos por gente que nunca leu um texto e que, por esse motivo, nunca viu as palavras que ouve. Limita-se a reproduzir os sons da forma que acredita ser o mais fiel possível. Desta forma surgem expressões memoráveis, como o incontornável "sequeso" ou o fantástico "água a que se diz nada" (sexo e água oxigenada, respectivamente). Quanto à "guerra das três seis", é obviamente (sublinho, obviamente) a "guerra das trincheiras."

Doutores e engenheiros

É com tristeza que comunico ao auditório o nosso 37º lugar no PISA. O programa da OCDE que persiste em enxovalhar-nos não ficou impressionado com os nossos conhecimentos científicos, linguísticos e matemáticos. Entre 57 países, ocupamos a terceira parte da lista, abaixo da média e muito atrás da Finlândia, que continua a liderar o barco. Como explicar esta sazonal desvergonha? O Ministério da Educação, em atitude que se aplaude, não cede ao populismo fácil de quem aconselha mais estudo nas referidas matérias. Para o Ministério, o problema está na 'disfunção' do sistema, que persiste em 'reter' os nossos jovens quando a atitude mais sensata seria aprová-los com distinção. Nas palavras corajosas de Jorge Pedreira, secretário de Estado-adjunto, "a retenção não é normal" (Freud, naturalmente, discordaria). Espera-se que o Ministério aprenda a lição e, a partir do próximo ano, faça o que lhe compete: no início da escolaridade obrigatória, entregar a cada criança um diploma universitário. E depois enviar o retrato para a OCDE. Se o PISA não se espanta com um país de poetas, talvez respeite um Portugal precocemente coberto por doutores e engenheiros.
João Pereira Coutinho

domingo, dezembro 09, 2007

A voz

"Mas a canção que se seguiu penetrou-me bem fundo no coração - era uma canção triste, guitarras e palavras tristes, uma rapariga americana cantando uma composição intitulada «Barbara Allen».
Que voz aquela! Nem precisava de música; quase não precisava de palavras. Ela própria criava a melodia; ela, só, bastava para criar todo um universo de sentimentos. Era isso o que as pessoas da nossa comunidade [indiana] procuravam na música e no canto - sentimentos. Era isso que nos fazia gritar «Wa-wa! Bravo!» e atirar notas e coisas em ouro para um cantor. Ao ouvir aquela voz, senti a parte mais profunda de mim mesmo acordando, aquela parte que conhecia a perda, as saudades, a mágoa, aquela parte que ansiava pelo amor. E naquela voz havia uma promessa de esplendor para todos os que a ouviam.
- Quem é a cantora? - perguntei a Indar.
- Joan Baez - respondeu ele. É muito famosa nos Estados Unidos.
(...)
...regressei à voz. Nem todas as canções eram como «Barbara Allen». Algumas eram modernas, falavam da guerra e da injustiça, da opressão e da destruição nuclear. Mas havia sempre melodias antigas, melodias ternas. Eram essas melodias que eu queria ouvir, mas no final a voz juntava os dois tipos de canção, juntava as donzelas e os apaixonados e as mortes tristes dos tempos passados com a gente dos nossos dias, a gente oprimida, a gente que ia morrer.
Tudo aquilo era fingido, não tinha a mínima dúvida. Só quem confiava na justiça, só quem tinha acesso à justiça, é que poderia ouvir canções ternas acerca das injustiças do mundo."

(V. S. Naipaul, A Curva do Rio, D. Quixote, pp. 159-161.)

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O direito à beleza

«A Primeira Guerra Mundial foi importante para a emancipação feminina porque a guerra veio dar trabalho / emprego às mulheres [que] assim tiveram mais direitos como o uso de decotes, saias pelos joelhos, começarem a vir tratamentos ou melhor maquilhagem e perfume, o primeiro perfume foi o chanel.»
.
(eu tenho a impressão que não foi isto que eu ensinei... e depois vêm dizer que a culpa é minha...)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Os loucos IV

Triste sina a de ser quem não se é. Uma mente, um coração, uma alma, chamem-lhe o que quiserem, e o corpo errado. O desejo trocado. Na adolescência, a imagem no espelho confundida com a idealização do desejo. Narciso? Não. Narciso, o pobre Narciso, apaixonou-se pelo seu reflexo. E morreu assim. Teve sorte. Além disso, os tempos eram outros, o Olimpo e a imaginação dos homens antigos eram mais livres e acolhedores. Pelo menos nessa questão dos amores trocados. O rapaz era capaz certamente de contestar estas palavras. Nem os amores estão trocados, ele sente-os como certos, logo o erro não estará nele, mas no mundo que o rodeia. É um daqueles casos em que todos os outros estão errados, não ele.As angústias passadas nunca foram reveladas. Mas não terão sido poucas. Desde logo, a dificuldade de aceitar como se é e de aprender a olhar o mundo visto ao espelho quando todos os outros o continuam a ver naturalmente. A esquerda dele a direita dos outros, o sim a soar não aos outros, o riso dos outros a gerar lágrimas nele. Depois, quando esse processo de auto-aceitação ficou feito, veio o outro problema. O de explicar ao mundo com se é e fazer o mundo aceitar. Não tinha sequer de apoiar, bastava pelo menos que ignorasse a questão, que aceitasse esse facto como se aceitam os olhos azuis, os caracóis, a voz rouca, o frio do Inverno, a escuridão das noites sem luar e todas as outras loucuras (nada mais do que desvios de uma norma que todos parecem contestar mas que todos aceitam e aplicam, mesmo contra si). A verdade é que os mais próximos aceitaram pior. Mas, curiosamente, entre os loucos o problema nem se colocou. Mesmo que haja excepções, não foram traduzidas em gestos ou palavras. E é quase certo que o rapaz encara o asilo de loucos como um dos lugares mais sãos que poderia encontrar, um abrigo onde continua a não poder ser quem é, onde continua a ser uma mente, um espírito, uma alma, chamem-lhe o que quiserem, escondido no corpo errado, mas onde ninguém lhe lembra do que deveria ser.

Os loucos III

O homem entra na sala. Um homem alto, lembrando uma marioneta desajeitada, os pés tropeçando no vazio, hesitando antes de pousarem no chão, o olhar indeciso, saltitando por toda a divisão, não à procura de alguma coisa, mas procurando evitar um contacto mais longo com outro olhar. O homem encontra um canto onde se consegue isolar. Senta-se, as pernas longas bem juntas, o tronco um pouco estendido para a frente. Os olhos pousam no chão, cansados da fuga anterior, repousam, ganham fôlego. E começam a erguer-se novamente. Ninguém lhe prestou atenção. Os restantes loucos derivam isolados ou balbuciando frases ocas em grupos. Os olhos são claros, e brilham de uma forma que não se esperaria na figura baça. Há ali uma fogueira interior que arde, queima e liberta aquele brilho. Esse fogo é a sensação de abandono e desadaptação. O homem não pertence aqui. As frases que ele balbucia não soam iguais às dos outros. O que lhe desperta a atenção é para os outros algo de estranho e hermético. Os outros pensam com palavras, ele pensa com números e relações de valores. Por isso as palavras lhe surgem com dificuldade. As perguntas que faz revelam uma inocência típica de um estranho. Para que serve…? Como se faz…? O que significa…? E, complementando as frases interrogativas, realidades tão claras como o amanhecer e o entardecer e a água da chuva e do mar junto à ilha verde. Dúvidas de criança. A cada momento esperamos que pergunte “de onde vêm os bebés?”
Quando encontra alguém com quem consegue conversar, convertendo mentalmente equações em orações antes de falar, o tema é sempre o mesmo. E nessa altura sentimos que o problema dele não é o de não pertencer ali, é algo mais profundo e dilacerante. Não é um fogo, mas uma chaga em carne viva, escorrendo sangue numa hemorragia imparável. E ainda assim os olhos brilham quando fala de outra terra, para onde deseja ir, de onde veio, e da filha que lá deixou. “Há muito tempo que não a vejo, Tenho saudades da minha filha, há muito tempo, há mais de dois dias, quase há uma semana. Tenho de ir. No fim do dia, hoje é sexta, não é? A minha filha, linda, não a vejo e sinto saudades.” E o interlocutor “era bom que fosse sexta, mas ainda é quarta-feira” e o brilho do olhar esmorece, a voz mais ténue por uns momentos, ganhando forças para continuar, como os olhos no chão recuperando o fôlego. “É que não a vejo há tanto tempo. De certeza que não é sexta-feira?”, e o outro já nem estranha a pergunta infantil. “de certeza, é quarta-feira.” “Mesmo assim, mesmo assim vou a casa. É uma viagem longa, vou pedir autorização e de certeza que me deixam ir, se lhes explicar que vou ver a minha filha, é impossível que não me deixem sair mais cedo, têm de compreender.” Enquanto fala, o seu braço direito retorce-se involuntariamente, a palma da mão vira-se para cima e os dedos curvam-se, formando uma concha. Este gesto, de tão habitual, tornara-se já conhecido, fazendo rir quem o observa. Mas desta vez o outro não se riu. Limita-se a encolher os ombros. “Por mim podes ir, creio que ninguém se importa.” E levanta-se, subitamente incomodado pela conversa, pois é do conhecimento geral que a filha não existe a não ser na mente do homem, um desesperado elo que ainda o liga ao mundo que já não é o seu.
O homem parece nem notar a súbita partida do seu companheiro de conversa. “Há tanto tempo que não a vejo, que vontade de a segurar, assim” e de novo o gesto a repetir-se, traços que restam de carinhos passados.

domingo, dezembro 02, 2007

o lambe-botas

Que o pseudo-engenheiro não tem formação, é já um dado adquirido. E que lhe falta também educação, há muito que se suspeita. Mas uma imagem e um gesto valem por mil palavras. Vejam como a ânsia de lamber as botas aos governantes estrangeiros o leva a ignorar uma pessoa (não importa quem) com quem falava inicialmente. Um gesto que diz tudo E é esta criatura sem educação que nos desgoverna...
(apressem-se a ver antes que o vídeo seja censurado no tube).

domingo, novembro 25, 2007

Com um brilhozinho nos olhos


Com um brilhozinho nos olhos

e a saia rodada

escancaraste a porta do bar

trazias o cabelo aos ombros

passeando de cá para lá

como as ondas do mar

conheço tão bem esses olhos

e nunca me enganam

o que é que aconteceu diz lá

é que hoje fiz um amigo

e coisa mais preciosa no mundo não há


Com um brilhozinho nos olhos

metemos o carro

muito à frente muito à frente dos bois

ou seja fizemos promessas

trocámos retratos

traçámos projectos a dois

trocámos de roupa trocámos de corpo

trocamos de beijos tão bom é tão bom

e com um brilhozinho nos olhos

tocámos guitarras

pelo menos a julgar pelo som


E o que é que foi que ele disse?

E o que é que foi que ele disse?

Hoje soube-me a pouco

Hoje soube-me a pouco

Hoje soube-me a pouco

Hoje soube-me a pouco

passa aí mais um bocadinho

que estou quase a ficar louco

Hoje soube-me a tanto

Hoje soube-me a tanto

Hoje soube-me a tanto

Hoje soube-me a tanto

portanto

hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos

corremos os estores

pusemos o rádio no on

acendemos a já costumeira

velinha de igreja

pusemos no off o telefone

e olha não dá para contar

mas sei que tu sabes

daquilo que sabes que eu sei

e com um brilhozinho nos olhos

ficámos parados

depois do que não te contei


Com um brilhozinho nos olhos

dissemos sei lá

o que nos passou pela tola
(tudo o que nos caiu no goto)

do estilo: és o number one

dou-te vinte valores

és um treze no totobola

(és um seis no meu totoloto)


e às duas por três

bebemos um copo

fizemos o quatro e pintámos o sete

e com um brilhozinho nos olhos

ficámos imóveis

a dar uma de tête a tête


E com um brilhozinho nos olhos

tentámos saber

para lá do que muito se amou

quem éramos nós

quem queríamos ser

e quais as esperanças

que a vida roubou


e olhei-o de longe

e mirei-o de perto

que quem não vê caras

não vê corações

e com um brilhozinho nos olhos

guardei um amigo

que é coisa que vale milhões


(S. Godinho)

A boa gestão governo socialista

"Advogado contratado duas vezes
O ministério da Educação contratou duas vezes o mesmo advogado para fazer o mesmo trabalho. No primeiro contrato, o advogado João Pedroso comprometia-se a fazer um levantamento das leis sobre a Educação e ainda a elaborar um manual de direito da Educação. O trabalho deveria estar concluído até Maio de 2006, mas tal não aconteceu. Apesar de não ter sido concluído nos prazos previstos, o advogado recebeu a remuneração.
Ainda assim, o ministério fez depois com João Pedroso um novo contrato com os mesmos objectivos, mas a pagar uma remuneração muito mais elevada. Em vez dos iniciais 1500 euros por mês, João Pedroso passou a receber 20 mil euros/mês.
Perante estes factos, o ministério da Educação justifica-se dizendo que os objectivos do primeiro contrato não foram cumpridos por erro de avaliação. O secretário-geral do ministério assume as responsabilidades da tutela. Ao Rádio Clube, João da Silva Baptista diz que o ministério não soube avaliar o volume de trabalho que entregou à equipa liderada por João Pedroso da primeira vez.
Por causa do erro de avaliação, o ministério da Educação acabou por ficar sem possibilidade de exigir a João Pedroso para acabar o trabalho pelo qual foi pago e decidiu por isso pagar mais e renovar o contrato. João Pedroso, contactado pelo Rádio Clube, recusou comentar os contratos que assinou com o ministério da Educação, remetendo todos os esclarecimentos para o Governo.
Uma notícia Rádio Clube investigada pelo jornalista Nuno Guedes."
.
Quando se diz "o ministério não soube avaliar o volume de trabalho..." quem é que se está a esconder? Que eu saiba, o "ministério" é uma entidade abstracta, sem capacidade para avaliar seja o que for. Quem foi o incompetente? Que penalização vai ter? E se se tratou de um erro de avaliação, só pode ter sido em relação aos prazos estabelecidos? Nesse caso, como justificar a fantástica subida salarial? O sr Pedroso vai fotocopiar toda a legislação emitida pelo ministério pagando do seu próprio bolso e pagar uma edição de autor com a compilação feita?
E é esta gente incompetente que legisla sobre educação e avalia profissionais formados para exercerem as suas funções? Com que legitimidade vem o ministério exigir resultados às escolas, se eles próprios são tão incompetentes e, ao mesmo tempo, benevolentes com os seus próprios erros "de avaliação" (um eufemismo para incompetência)? É que, caso não tenham reparado, os objectivos traçados pelo ministério são tão ridículos e utópicos (nas actuais condições) que podem ser considerados "erros de avaliação" (se o julgamento que fizermos for brando).
Ah, presumo que o facto de João Pedroso ser familiar do socialista Paulo Pedroso nada tenha a ver com a sua contratação e remuneração faraónica.

domingo, novembro 18, 2007

Eis alguém que, claramente, não sabe do que está a falar. E é pago para o fazer. Meu Deus, será o expresso um jornal estatal?

A socialista

Num almoço, falando-se das oportunas mudanças da lei que protegem (oh coincidência) suspeitos politicamente importantes num processo que decorre ainda nos tribunais, alguém diz: "vê-se logo que o governo é socialista." A senhora exalta-se. Uma generalização abusiva, afirma. Estava dado o mote. Uma mesa inteira expôs argumentos sobre a falta de honestidade e a arrogância socrática, sobre o controlo da comunicação social (e a forma como esta se aninha no confortável colo socialista), sobre a incompetência gritante do governo, sobre a ausência de pudor e de culpados em tudo o que são desvios de dinheiros públicos... A tudo isso a senhora defendia-se com um único argumento. O sr Sócrates e os socialistas não são os únicos a fazer isso.
Quando o único argumento de defesa de uma simpatizante política é "os outros também o fizeram e também são beneficiados", não há necessidade de argumentar mais. Está lá o peso na consciência, a noção que os seus agiram e agem mal. Sobre a pseudo-licenciatura, afirmou: "vocês não podem negar que ele é engenheiro. Pode ter conseguido a licenciatura de forma errada, mas conseguiu-a, por isso é engenheiro." Pois. Por essa ordem de ideias, nenhum crime deve ser punido. E ficámos todos com a certeza que se o visado não fosse o sr pseudo-engenheiro, mas sim um político de outro partido, que a conversa seria outra.
Sinceramente, não sei como há pessoas que conseguem fazer as viagens de casa até ao local de trabalho, com palas tão grandes a taparem os olhos.

Os parasitas de Portugal

Recebi interessante powerpoint sobre trafulhices das grandes figuras da nação, uma descrição perfeita de como sugam o dinheiro dos contribuintes. As mesmas criaturas que nos desgovernam há décadas... Como devo "educar para a cidadania" vou utilizar os exemplos nas aulas de cidadania e mundo actual. Pelo menos ajudo umas crianças a abrirem os olhos. E os senhores inspectores (uma corja geralmente recrutada na árvores dos velhos presidentes de escola corruptos) bem podem vir assistir se quiserem, desde que tomem banho e tenham maneiras.

momentos alheios ao tempo


"Now I see you standing with brown leaves falling around and snow in your hair. Now you're smiling out the window of that crummy hotel over Washington Square. Our breath comes out, white clouds mingles and hangs in the air. Speaking strictly for me, we both could have died then and there..."

(Joan Baez, diamonds and rust)

Andrew Wyeth, Day dream


it's late (bso apropriada para a hora tardia)

"...
It's late - and I'm bleeding deep inside
It's late - ooh, is it just my sickly pride?
Too late - even now the feeling seems to steal away
So late - though I'm crying I can't help but hear you say
It's late - It's late - It's late
But not too late
..."
(B. May / Queen - News of The World)

Os loucos II

A segunda sala (separada da primeira por uma simples porta de madeira) está reservada para os casos de dependência. É nela que os fumadores se reunem, sentados em redor de mesas que servem de suporte para os cinzeiros. Aspiram o fumo e expiram-no depois de sentirem o seu efeito no corpo e nos sentidos. O governo e as autoridades sanitárias, na sua ânsia de combaterem todos os vícios que não os seus, mais legítimos, da mentira e da pilhagem e do arrogante pretencionismo, já têm estruturadas leis e regulamentos que, por mero pudor, não apelidaram de "solução final", mas que é copiada da original. O seu objectivo é o extermínio completo do vício e a criação da sociedade perfeita (pelo mesmo motivo, foi já proibido o acesso dos pacientes à coca-cola, em nome da sua saúde e da independência cultural da Europa).

Na sala repleta de fumo, os fumadores apresentam olhar triste e os rostos e os corpos cansados. O tabaco dá-lhes forças, brilho no olhar e um sorriso nos lábios. Até a beata morrer esmagada no cinzeiro e a campaínha soar. O fumo liberta também as palavras e, pouco a pouco, também o riso. Por esse motivo, a sala é frequentada vários pacientes que escaparam à prisão do vício, atraídos pelas vozes que lhes poderão acalmar a angústia da solidão que os sufoca. Alguns parecem ter tanto para dizer. Mas entram e sentam-se e ouvem, de olhos baixos e ombros curvados, à espera que algo aconteça. Acabam por se retirar, sem que nada aconteça.

A sala atrai também um curioso grupo de interesseiros, pacientes internados por vários motivos mas que têm em comum uma dificuldade em assumirem a sua condição de viciados. Iludem-se negando-se a comprar tabaco, mas não resistem a pedir continuamente cigarros, dia após dia, com um sorriso já ensaiado. Pelo facto de gostarem de consumir o que hoje se considera um luxo com o dinheiro de terceiros, alguns destes elementos foram diagnosticados como sofrendo de um síndrome designado de "Teixeira dos Santos", nome de um dos casos mais graves e noticiados em vários meios de comunicação.

Também nessa sala, está sentado um homem, um vulto cinzento e curvado, quase sempre silencioso. Entra olhando o chão, na crença de assim a sua presença passar despercebida, procura um lugar vazio e senta-se. Quando fala, o tom de voz é tímido, quase inaudível. Abre uma volumosa pasta de mão, a transbordar de folhas desordenadas, com pontas dobradas e vincadas, cheias de desenhos e garatujos feitos a esferográfica. O seu tema preferido são rostos femininos, de cabelos ondulados, olhos imensos e uma expressão de tristeza que nasce contra a sua vontade. Com a mão, procura uma caneta nos bolsos, estende uma folha na mesa, que alisa com a outra mão, e principia a desenhar. Durante o tempo em que o desenho se vai compondo, entra numa espécie de mundo próprio e o tempo parece passar mais depressa e mais leve.

Junto a ele, uma rapariga segura o cigarro no ar, com o cotovelo apoiado na superfície branca da mesa, de forma a manter o fumo longe de si. A sua fixação não são desenhos, mas números. O seu olhar percorre a sala contando mosaicos e descobrindo padrões, ordenando-os de três em três, de cinco em cinco. Apaga um cigarro e sorri satisfeita. O seu sorriso é bonito e não pertence àquele local. O homem que desenha aprecia-lhe o sorriso. Por esse motivo, quando termina um desenho, ou mesmo a meio, liberta-se um pouco do seu mundo e mostra a folha à rapariga. Invariavelmente ela sorri e ele sabe disso. Olha-a, guarda-lhe o sorriso na memória, na esperança que se prolongue, e continua o desenho ou inicia outro.

Uma outra rapariga entra na sala. Tem o cabelo desenhado em ondas claras e caído, como braços de quem desistiu. O seu rosto é atraente, mas está escurecido por olheiras e as suas palavras são lamentos e prenúncios de fragmentação interior. Fala pouco e sempre mantendo uma distância de desconfiança em relação aos outros, lembrando um animal acossado. A sua fragilidade deixa-a à mercê das agressões dos enfermeiros e, no entanto, lá está dia após dia, no seu lugar, tentando aguentar mais algum tempo.

O barulho que enche a sala é a voz de um dos pacientes, que sofre crises obsessivas. Essas crises podem ser despoletadas por uma simples palavra que alguém diga e que lhe desperte a atenção. Nessa altura, começa a falar sobre o assunto em questão, num discurso interminável que se desenha em espirais que vão preenchendo o tempo e a sala. Não é o pior caso do género. Ataques semelhantes têm sido verificados em dois ou três dos pacientes, tendo um deles balbuciado uma tarde inteira patetices sobre arquitecturas, casas e ruas, lamentando, no final, o tempo de vida gasto em conversas inúteis.

sábado, novembro 17, 2007

Os loucos I

O edifício foi construído para servir de escola. Entretanto, com o ensino caído em desuso graças às maravilhas das novas oportunidades, pensou-se no seu desmantelamento. Porém, um plano de recuperação de edifícios públicos foi posto em prática e o velho edifício (ou melhor, a velha estrutura de edifícios, um conjunto de blocos ligados por linhas de coberturas de zinco ou imitando telhas cinzentas) passou a servir de enfermaria e centro de dia para os loucos e os inadaptados. O ministério do ensino, de forma discreta, enviou para lá todos aqueles seus funcionários em estado de demência. Muitos estão num estado tão avançado que acreditam ainda estar em funções. Jovens e enfermeiros adultos contratados para representarem o papel de alunos e pais ajudam à ilusão, numa política de saúde inovadora. Todas as manhãs, os loucos se dirigem para o edifício, alimentados a café, açúcares e tabaco. Horários são distribuídos pelo enfermeiro-chefe, ou pelas enfermeiras do seu gabinete. Os loucos, esperando o chamamento de sereia das campaínhas, um cântico incómodo, ao mesmo tempo odiado e irresistível, enchem as salas de convívio, a seu tempo intituladas de salas de trabalho. Numa das mesas, um homem grande e vestido de negro, com uma voz forte e incómoda, abre a sua pasta. Todo o conteúdo está alinhado de forma exacta e compartimentada. Sofrendo de um problema de organização compulsiva, o homem é incapaz de lidar com o inesperado. Tornou-se impaciente, irritável. Quem o observa pensa num kappo em Birkenau e violinos amargurados parecem ouvir-se lembrando tempos de morte frio e sofrimento. A pasta fecha-se o observador desperta dessa imagem que o possuiu.
O seu olhar procura outro alvo. Num canto da sala está sentada uma mulher de cabelos ondulados e negros, com um rosto e um corpo que poderiam ser atraentes, mas que acabam por provocar uma estranha repulsa (instintiva, um pressentimento de perigo escondido no olhar vazio e penetrante ou nos gestos que parecem calculados e ensaiados até ao mínimo detalhe). A mulher está isolada e em silêncio. Quando chegou, nos primeiros tempos do seu tratamento, mostrara-se extrovertida e alegre. Essa capa, porém, caiu ou desfez-se e hoje os outros doentes passam por ela como se de uma estátua se tratasse, um corpo inerte depositado num dos sofás de tecido sujo. Mesmo assim, a mulher por vezes fala e a sua voz ergue-se enchendo a sala. O ruído incomoda os outros, que ouvem em silêncio primeiro, depois em burburinhos de pássaros, de asas de insectos ou de águas caindo à distância. Olham-na por momentos, depois desviam o olhar para o chão e deixam-na envolvida no seu discurso.
(continua)

sábado, novembro 10, 2007

retrato de uma conspiração ou do verdadeiro rosto do Estado Português?

"O que Catalina Pestana tem vindo a dizer preto no branco em entrevistas públicas, a que se soma a informação que acrescentou em privado e confidencialmente aos responsáveis do MP e da Casa Pia, é que existe uma acção concertada, para proteger um grupo de poderosos envolvidos em crimes de pedofilia. Aponta o dedo a círculos do PS e da maçonaria. Concretiza as suas acusações reafirmando a sua convicção da culpabilidade de Paulo Pedroso e acusando os socialistas de terem alterado os Códigos para proteger os acusados no processo Casa Pia. Catalina Pestana não faz meias acusações, coloca nomes, circunstâncias e factos suspeitos na sua voz, na primeira pessoa.
A resposta a Catalina por parte dos visados é, para não ir mais longe, frouxa e incomodada. Por um lado, há uma clara tentativa de a desacreditar, por outro, uma ausência de acção que só dá força às suspeitas lançadas. Por exemplo, nomeia directamente Paulo Pedroso, que no passado processou muitos dos seus acusadores e jornalistas que trataram o caso, mas que agora diz ter intenção de não o fazer à sua acusadora actual. Do mesmo modo, continua sem ser esclarecida a história das alterações aos Códigos nos seus artigos mais sensíveis para o caso Casa Pia, sem se perceber o que aconteceu às actas da Comissão e quem introduziu essas alterações. Sabe-se quem diz que não foi responsável, não se sabe quem foi o responsável e parece cada vez mais que há um encobrimento sobre essa alterações.
Não me parece haver loucura especial nas palavras de Catalina Pestana e os que agora a tentam desacreditar foram alguns dos que a escolheram ou a aceitaram para as funções que exerceu. ... O que Catalina Pestana diz, caso seja verdade, conduziria, em qualquer país civilizado, à queda do governo e à incriminação de todos os envolvidos naquilo que é, na verdade, o retrato de uma conspiração."
(JPP, no Abrupto)

..."take a good look around, this is my hometown" (B. Springsteen)